Pesquisador Jack de Witte busca editora para publicar edição em português de sua biografia do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva
O cenário de truculência e banditismo no Sertão nordestino permaneceu no imaginário do francês por toda a vida. Décadas mais tarde, já formado em engenharia eletrônica, morou três anos no Rio de Janeiro, quando teve a oportunidade de conhecer mais sobre a lenda por trás de ficção, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva. Ao se aposentar, intensificou a pesquisa em jornais das décadas de 1920 e 1930, além de montar biblioteca com 60 livros sobre o assunto. “Me tornei um apaixonado pelo cangaço”, diz.
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Na avaliação do pesquisador do cangaço Frederico Pernambucano de Mello, o livro é um “romance histórico desafiador”, referindo-se à maneira peculiar de narração. “Para o historiador, cometimentos assim chegam a ser arrepiantes... Mas o certo é que ele [o autor] cercou-se de informações densas sobre a vida do cangaceiro”. Pernambucano de Mello foi um dos que colaboraram com a pesquisa do francês. “Creio que cabe a tradução para o português. O assunto está vivendo efervescência máxima”, completa.
Sobre o interesse em editar a obra no Brasil, de Witte diz ter essa intenção desde o início da pesquisa. “Não escrevi o livro para os franceses, e sim para, de algum modo, fazer parte dessa história”. E aproveita para explicar a pouca repercussão desde o lançamento em Paris. “As pessoas na França são muito egocêntricas e etnocêntricas, não estão abertas para aprender a respeito de outros locais”.
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“BANDIDO SOCIAL” (VISÃO BRITÂNICA)
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O historiador britânico Eric Hobsbawm traça perfis de vários “bandidos sociais” ao redor do mundo, entre eles, Lampião. No livro, ele aponta a lenda de Robin Hood como ideal universal do bom ladrão para analisar como a ausência pode transformar criminosos em heróis. A análise rendeu muitas críticas, sobretudo por sugerir que essas figuras representavam a “reação dos excluídos” contra a opressão de alguns poderes centrados no campo. No caso particular de Lampião, Hobsbawm o considerava um “bandido social” com a ressalva de que havia nele uma ambiguidade. Era “meio nobre, meio monstro”.
“BANDIDO DE ORIGEM SOCIAL” (VISÃO NORTE-AMERICANA)
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O norte-americano Billy Chandler é um dos críticos de Hobsbawm. Para ele, Lampião só se encaixa no conceito de “bandido social” por ter origem em ambiente injusto, e que seria exagero falar em justiça social por parte do cangaceiro. Na biografia de Virgulino, examina a trajetória desdea infância até o episódio de sua morte. Separa fatos da ficção e coloca o personagem no contexto do sertão, onde tornar-se cangaceiro era um ato natural e atrativo para o filho de um agricultor. Relatos atuais e da época, arquivos e entrevistas sustentam a análise sistemática sobre o cangaceiro.
A historiadora francesa Élise Grunspan-Jasmin fez vasto levantamento e comparou várias versões sobre a vida de Lampião. Também explica como a imagem do “mito” foi construída pela imprensa dos anos 1930, que embora criticasse a violência, ajudava a construir a lenda do herói invencível, de corpo fechado. Ela aponta as numerosas fotos publicadas na imprensa, e revela o enorme prazer de Virgulino em posar para fotógrafos e se ver nos jornais. Com grande senso de marketing, manipulava jornalistas para se promover. A “lenda” seria reforçada com a literatura de cordel, bonecos de barro, filmes e músicas.
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Frederico Pernambucano de Mello
“Conheci pessoalmente Jack de Witte em Paris, em 2004, quando fui fazer palestra sobre o cangaço. Alto, magro, contido, ares de jesuíta que largou a batina. No dia seguinte, à noite, nos avistamos demoradamente para um vinho em casa da também brasilianista do cangaço Élise Grunspan-Jasmin.
Jack estava cavando informações para escrever seu livro sobre Lampião, um romance histórico muito desafiador, vez que corre o risco de dar voz ao grande cangaceiro, fazendo com que este vá alimentando a narrativa com revelações sobre fatos e sobre motivos por trás desses fatos. Para o historiador, cometimentos assim chegam a ser arrepiantes...
Mas o certo é que ele não se lançou ao risco a partir do vazio. Ao contrário, cercou-se de informações densas sobre a vida do cangaceiro, detendo-se por anos no levantamento destas, o que confere respeitabilidade ao produto final. Li a versão em francês de seu livro, faz alguns anos, e creio que caiba a tradução para o português, com vistas ao nosso público. O assunto está vivendo efervescência máxima.
Jack de Witte está longe de ser um aventureiro. Cercou-se criteriosamente dos elementos necessários a nos dar a visão pessoal do que entende terem sido algumas das razões e propósitos do Capitão Virgulino Ferreira. Trata-se, por outro lado, de um enamorado do Nordeste do Brasil sem meios-termos, sobretudo dos sertões setentrionais. Que não deixa turvar seus estudos por essa paixão.”
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Uma das principais fontes de pesquisa de Jack de Witte foram edições antigas do Diario de Pernambuco. Não à toa, Lampião VP tem mais de cem citações a notícias publicadas no jornal. Confira algumas delas:
Diario de Pernambuco, julho de 1922 - Ao lado de 50 homens, Lampião entra em confronto com a polícia no Espírito Santo.
Diario de Pernambuco, agosto de 1922 - Aos 25 anos, Lampião ataca município de Água Branca. Foi definido como possuidor “de uma perversidade insólita”.
Diario de Pernambuco, agosto de 1924 - Bando de cangaceiros atacam a cidade de Souza, na Paraíba.
Diario de Pernambuco, julho de 1925 - Confronto entre 19 policiais da Paraíba e 15 cangaceiros deixa vários mortos, entre eles o irmão de Lampião, Levino.
Diario de Pernambuco, fevereiro de 1926 - É desmentida a suposta morte de Lampião, boato que estava sendo noticiado.
Diario de Pernambuco, novembro de 1926 - Lampião junto a 120 homens sequestra representantes das empresas Souza Cruz e Standard Oil, e exige resgate.
Diario de Pernambuco, dezembro de 1926 - governadores dos estados nordestinos se reúnem para combater o banditismo no sertão.
Diario de Pernambuco, setembro de 1927 - O bando de cangaceiros estaria “desmoralizado” e reduzida a 14 homens.
Diario de Pernambuco, julho de 1938 - Notícia da morte de Lampião e de mais 11 cangaceiros.
| Cangaceiros foram retratados por Candido Portinari. |
Nesta terça-feira, dois leilões de arte latinoamericana foram realizados em Nova York e artistas brasileiros apareceram mais de uma vez na lista dos dez mais valiosos. Lampião e Maria Bonita, pintado por Cândido Portinari em 1947, foi arrematado por U$S 482.500 (R$ 1.011.079) no leilão da Christie’s. No evento promovido pela Sotheby’s, a obra Fumo, de 1938, foi vendida por US$ 374.500 (R$ 784.765).
Ainda na Christie’s, a obra Jogo de carretéis, pintada por Iberê Camargo em 1967, foi arrematada por US$ 422.500 (cerca de R$ 884.715) e bateu o recorde de venda em seu acervo. A estimativa era de qua a pintura alcançasse um valor entre US$ 120 mil e US$ 180 mil.
Com uma arrecadação de U$S 938.500 (R$ 1.965.219), Horse, de Fernando Botero ficou em primeiro lugar na Christie’s. O pintor ainda apareceu em quinto lugar com Nun eating an apple, de 1981, com um valor de US$ 602.500 (R$ 1.261.936).
Além de Camargo, Arnaldo Roche Rabell, Tomás Sánchez, Olga de Amaral, Carmen Herrera e Oscar Muñoz também conquistaram novo recorde mundial. No total, a fundação Christie’s arrecadou US$ 13.614.800 (R$ 28.515.000). E a Sotheby’s US$ 23.130.251 (R$ 48.446.000).
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